Parte de artigo publicado nas Bons Fluídos (109) sobre espiritualidade feminina.

 

 

“Na franja do seu poncho, que ela usa nos dias mais frios, ainda se pode ver as marcas dos dias em que ela ficou sozinha numa montanha no México, praticando o trabalho espiritual xamânico da “busca da visão”.  Foram 9 dias dormindo no chão de terra, sem barraca, fazendo jejum, enfrentando o medo do escuro, procurando entender o simbolismo dos animais, aves e insetos que vinham visitá-la, conhecendo mais profundamente a si mesma, ultrapassando seus limites, desenvolvendo capacidades desconhecidas, descobrindo dons. No Peru, onde morou por sete anos anos,  participou de várias tendas do suor (temascals), rituais de fogo para purificação, cerimônias para entrar em contato com seus guias espirituais. No Brasil, desta vez numa linda (e chuvosa) montanha de Santa Catarina, mais um período solitário de 13 dias contado nas franjas do poncho, para completar o ciclo de busca da visão, um dos passos iniciais do caminho xamânico para a ampliação da consciência. Pertencente a senda xamânica Fogo Sagrado de Itzchatilatlan, a campineira Izabel Camargo Donalisio encontrou a forma mais profunda de expressar sua espiritualidade junto à natureza, seus ciclos, condições e elementos. “Descobri a sacralidade da vida, as dimensões que nos perspassam, a imensidão do mundo espiritual”, diz ela, que hoje comanda rituais do fogo em São Paulo. A intensa ligação com tradição espiritual das Américas, porém, não a impede de ter compromissos bem rotineiros: ir ao banco, fazer compras, viajar a trabalho. Ou de procurar conciliar a atividade do mundo xamânico com a calma do mundo contemplativo, pois Izabel também é praticante de meditação zen. E essa integração espiritual, tão típica do feminino, é vivida com leveza e graça, talvez a mesma dos seus brincos em forma de colibri.”

 

    

Liane Alves